Fui visitar uma daquelas igrejas enormes, em um dos dias em que ela estava mais cheia, nenhum banco vazio pelos corredores gigantes. Muitas pessoas estavam fazendo suas preces em pé, nos cantos, apinhadas, apertadas entre os ombros de quem fazia de tudo para estar ali. Somente o corredor central estava livre, uma reverência, uma conveniência, um respeito absoluto pelo caminho de quem mais quisesse entrar e se aventurar para encontrar um canto para se espremer e então participar da comunidade dos encolhidos.
Enquanto caminhava para a saída, pois naquele ambiente não parecia haver fé, apenas fervor, reparei que havia um banco onde apenas um senhor estava sentado, sozinho. Um banco onde sentariam 7 pessoas, apenas um lugar estava preenchido. E ao redor do banco, também não havia ninguém apertado, parecia que evitavam qualquer espécie de contato com aquele homem.
Chegando mais perto, era um jovem, alguém com quem se cruzássemos pela rua, não chamaria nossa atenção por nenhuma razão particular. E ali, era impossível desviar o olhar. Que tipo de história essa cena estava tentando me contar? Que tipo de energia fazia aquele jovem ter um banco da enorme igreja só para ele, quando todos ao redor, quase lutavam, por um espaço onde se espremer?
A vontade de ir embora passou, a curiosidade venceu. Sentei a 2 espaços do jovem e de cabeça baixa e olhos entre abertos observava tudo que podia, fingindo uma prece. Qualquer movimento, reação, som, expressão era possível perceber, pois todos estavam em completo silêncio.
Ocasionais tosses, suspiros e o inconfundível trocar de posição dos pés cansados de ficar em pé foram os únicos companheiros dos 10 minutos mais longos da minha vida. Se ninguém reagir, nada mais me mostrar a razão da minha curiosidade, melhor desistir. Estou desconfortável com essa situação, mas não o suficiente para ser eu quem vai quebrar o silêncio. Silêncio forçado e antinatural. Ninguém cochichava suas orações, ninguém soltava um amém chiado entre dentes, natural dos que rezam. Credo!
- É grande esse prédio, não é?
Arregalei os olhos de susto! E ao virar para o lado, o jovem me observava com um leve sorriso. Ao perceber que eu estava assustado demais para responder, ele continuou a falar, como se falasse para todos e ao mesmo tempo para ninguém:
- Eles faziam essas igrejas enormes, altas e compridas para que as pessoas se lembrem que são apenas formigas aos olhos de Deus. Sejam apenas grãos de areia no infinito poder do Senhor. Sabia que Ele nunca disse isso? - tocou meu ombro - Eu sei que você entende. Foi o único em muito tempo que conseguiu sentar neste banco comigo, sem medo... Curioso.
O que eu fiz!? As pessoas ao redor vão me culpar porque ele quebrou o silêncio só por eu ter sentado com ele. Deve ser por isso que ninguém senta aqui. O que eu faço? Levanto e saio, ou desconverso e peço para ele me deixar rezar em paz? O que eu faço?
- Olhe em volta, antes de ficar tão desesperado, eles não conseguem nos ouvir. Eles estão só com medo. Todos os dias vêm aqui, rezam e pedem para que Deus os proteja, atenda seus desejos, cure suas feridas, abençoe sua prosperidade e propriedade. Cegos para o que realmente significa rezar. Credo! - Ainda não consegui reagir, ele perguntou - Você não é daqui, não veio pedir nada. Por quê veio aqui?
Olhei em volta e ninguém mesmo se importava, continuavam a se balançar de uma perna para a outra, tossir e suspirar, como máquinas programadas para isso. E agora eu precisava pensar, por quê eu vim até aqui? Respondi que eu só queria conhecer uma das grandes igrejas históricas.
- Muito bem, então por isso não sabe quem eu sou, que bom, um credo a menos por hoje. Gostou de conhecer?
Eu não sei, estou extremamente desconfortável com essa situação. - Achei bonita, mas não me senti bem. Estava indo embora e você me chamou atenção. Por quê você está sozinho neste banco? - Já que estamos aqui...
- Direto ao ponto, gostei! Eu sou Jesus, mas não estou sozinho, apenas as pessoas não conseguem estar presentes como eu e você.
De todas as respostas que ele podia ter me dado, tinha que se passar por Jesus? Clichê que faz os fiéis acharem que conversaram com Jesus dentro dos templos históricos. Eu não preciso disso hoje, não! - Prazer Jesus, podemos só fazer nossas preces? - Sanou minha curiosidade, agora já chega, 5 minutos e eu saio.
Depois de mais ou menos 5 minutos, antes de eu me levantar - Meu nome é Jesus, mas não precisa achar que eu sou o Cristo, cara, fica tranquilo. Você não está aqui para rezar, mas mesmo assim foi a pessoa que se sentou no único banco vazio, que não superou a curiosidade e que não pensou que eu era alguém odiado pelos demais ou um pobre precisando de uma moeda. Eu percebi que estava curioso, eu sei que ninguém ao redor se importa se a gente conversar e então, puxei papo. Não precisa transformar isso em uma história de fé, nem numa pegadinha de televisão, eu não tenho dinheiro para contratar centenas de figurantes para ficar de pé esperando alguém sentar do meu lado, não. - Disse isso quase gargalhando, mas ninguém reagiu. Só uma moça atrás de nós tossiu novamente.
Então... - De Jesus o Cristo para Jesus o leitor de mentes? Como sabe que eu estava curioso?
- Eu estou gostando que você quer me dar um título especial, mas não, não leio mentes, só comportamentos por experiência. Eu sou Jesus o zelador da igreja, chego aqui antes de todo mundo e me sento neste banco antes de todo o público chegar, porém são poucas as pessoas que sentam junto comigo e comecei a perceber que se sentam perto de mim quem está curioso ou quem está com pressa. Você porém, não estava só calmo, sem pressa, como pareceu curioso de um jeito diferente, acabou me deixando curioso também sobre você. Quando te vi esperando uma reação minha, puxei assunto. Espero que não se decepcione por não ter nada de mais especial em mim. Acontece muito nas igrejas, as pessoas querem encontrar Jesus, querem ver uma mancha na vidraça que se parece com alguma santa, é da Egrégora do local. Está tudo bem. Só que exatamente por isso você me chamou a atenção: O que você queria?
E mais uma vez, Jesus me faz pensar. Eu só queria conhecer uma igreja gigante, histórica e parece que estou tendo uma experiência sobrenatural, mas acabei de ser puxado para a realidade dos fatos. E estou perplexo com isso, tudo muito rápido e muito maluco. - Eu só queria ver uma igreja enorme e histórica, mas fiquei mesmo curioso de porquê você estar sentado sozinho se a igreja está tão cheia. A curiosidade foi respondida, mas por quê você falou comigo?
- Porque eu te vi no café ontem e você me chamou atenção, fiquei surpreso positivamente quando te vi entrar na igreja hoje e ainda mais feliz por você se sentar aqui comigo e me dar a oportunidade de conversar com você. Seu nome é mesmo Marcos, ou foi só o nome que você deu para a atendente te chamar no café?
Estou num reality show? Só pode! Abismado: - Meu nome é Marcos, vamos atrás dos seus apóstolos e discípulos, Jesus? - Tentei brincar para não parecer tão nervoso.
- Não, não, relaxa, eu sou o zelador da igreja, não pregador da palavra. E não precisa ficar tão assustado, eu só ouvi seu nome porque você me chamou atenção lá na cafeteria, perdão se te assustei. Eu saio do trabalho às 14 horas, vamos tomar um café juntos hoje? Às 15 horas, na mesma cafeteria, que tal? Quem sabe se a gente conversar fora da igreja você me leve mais a sério?
Depois da surpresa, Jesus parecia um cara legal e inclusive bem bonito. Aceitei o convite para o café e nos despedimos. Ele ficou no mesmo lugar, voltou a ficar na mesma posição que antes.
Ao sair da igreja, procurei a secretaria para confirmar se o Jesus era mesmo o zelador ou eu devia evitar o encontro de hoje para sempre. A secretária da paróquia confirmou com um sorriso no rosto. - Ele é o zelador da igreja a bastante tempo, assumiu depois que o pai dele se aposentou, não precisa se assustar, as poucas pessoas que sentam perto dele vêm aqui confirmar, mesmo. Normalmente são as senhorinhas que acham que ele é um mendigo, puxam papo com ele oferecendo ajuda, mas quando ele fala que se chama Jesus elas ficam assustadas e vem denunciar ele aqui como um impostor se passando de Jesus para dar golpe nas pessoas dentro da igreja. Fiquei feliz que você não pensou nada do tipo, obrigada. Ele é um rapaz quieto e quem frequenta a igreja na maioria das vezes apenas o ignora. Por favor, fique tranquilo e tenha um bom dia.
Jesus chegou na cafeteria 15 horas em ponto. Conversamos a tarde inteira e talvez até vamos nos encontrar novamente antes de eu voltar para casa. Dos encontros improváveis que uma viagem de férias pode nos proporcionar...
Quase esqueci de contar, o nome dele na verdade é Jonas, me contou quando nos despedimos fora do hotel, ele fala que se chama Jesus porque era uma brincadeira do pai dele, o antigo zelador, que falava que ele era o filho da santa igreja, já que vivia junto com o pai naquela mesma igreja desde pequeno. E então eu confessei também que o meu era Bernardo, mas é Bernardo Marcos, então pelo menos eu não menti, só acho mais fácil para me chamarem de Marcos quando eu peço um café.










