segunda-feira, 6 de abril de 2026

Viver, mata.

    Dispensa elaborar esse conceito tão dicotômico. Dispensa porque não importa o que eu diga, minha vida é minha morte e para você será vida. E para mim tantas vidas são a morte.

Vivo, morto, morto, vivo.

    Na brincadeira lúdica de uma infância não tão distante, estava a chave de todo um complexo sistema que envolve toda a vida, até a morte. Especialmente o além morte.

Vivo, vivo, morto! Vivo! Morto, morto, morto, morto, morto…


    Morto de tanto viver, vivo de tanto morrer, mas ao mesmo tempo, nada de vivo temos hoje em dia em nossas vidas. Só o efêmero. Quase morto enquanto vive, mais vivo que nunca depois de morto. O momento presente. O momento infinito, que passa sem nunca acabar. Acordamos no presente, vivemos no presente, morremos no presente. E nada sabemos sobre ele.

O passado podemos nos lembrar. O futuro podemos sonhar.

O presente: abstração absoluta de uma vida inteira.


    Viver o presente, parece tão simples, mas ele é infinito, nossa mente não foi treinada para viver o infinito, sabemos contar, sabemos detalhar, sabemos tudo que é preciso saber para que o que começamos termine. Não sabemos lidar com o que não tem fim, não pode ser definido, não pode ser controlado ou registrado como referencial. O presente se sente, se vive, se experiencia. Cada um do seu jeito. Sem possibilidade de se preparar com relatos alheios, pois as chances de acerto mais prováveis ficam em no máximo 50% a cada segundo. Se a estatística é de 50% com uma repetição tão frequente, na verdade ela não determina nada, não guia, não prevê, não agrada. É apenas incerteza ou, melhor dizendo, a comprovação da incerteza.

    Por isso temos essa intensa dificuldade de experienciar o aqui e o agora. Ele está sempre vindo, sempre rápido demais para ser registrado, sempre incerto, sempre perto demais e ao mesmo tempo, bem, a cada letra neste texto, ele já acabou. Passou, tão fresco, tão efêmero, tão morto. O passado fica, o presente nunca chega. O futuro vai chegando e pode ficar 50 anos na nossa frente sem nos incomodar. O presente, parece que nunca estará plenamente conosco. Presente.


    O presente é a morte em vida e para aproveitar, não quero interrupções, nem espero nada mais do que aqui já está. O presente é fugaz e facilmente interrompido. Um barulho alto demais e vamos direto para o passado, quando ouvimos algo semelhante, procurando referências e preparando nossa reação sobre o ponto de vista do que já passou.

    Quando ele está bem calmo e relaxante, viajamos para o futuro, onde construímos um castelo de cartas que podem nos abrigar do marasmo, nos soterrando no primeiro vento de um roteiro melhor que vai passar voando pela mente, sempre em trânsito.


    Ah, o presente, ele está em todos os lugares, preso conosco no fim do futuro e passeando paciente pelas histórias do passado. Em estradas de terra onde fomos ver o pôr do sol, naquela viagem em 1987, e na vontade de ir para lá novamente, mesmo que os prédios hoje atrapalhem a vista, depois do passado ser completamente transformado por uma sequência enorme de presentes apressados, lotados de gente e mudanças de estação.

    Choveu, esfriou, mudou o cenário e tudo isso foi presente um dia. Hoje é passado. E o futuro mudou várias vezes de lá para cá. E no meio tempo, só o presente não ficou…

Se esse amor desaparecesse hoje

Imagem final do filme "Se esse amor desaparecesse hoje" 


2 comentários:

  1. Vejo a existência como um fluxo instável, onde viver e morrer se misturam, e o presente embora seja tudo o que existe é também o mais inalcançável. Trata-se de uma visão crítica, introspectiva e marcada pela incerteza e pela transitoriedade da vida. Parabéns! super-herói !

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